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#CARTA ABERTA A JUIZ QUE MANDOU VITÍMA DE VIOLAÇÃO FECHAR AS PERNAS!

16 março 2017


Vão-me desculpar, mas o texto de hoje não é dirigido a mamãs, nem filhos, nem tão pouco é sobre moda ou lifestyle – é, para mim, mais importante que tudo o resto - é sobre direitos humanos. Aqueles pelos quais lutamos há séculos e que continuam a não passar de uma utopia.

Em 2014, uma jovem canadiana de 19 anos foi violada numa casa de banho durante uma festa em casa de conhecidos. Repito, conhecidos! Não eram estranhos, não eram pessoas que nunca tinha visto na vida. O juiz responsável pelo caso perguntou-lhe em tribunal "porque não manteve os joelhos fechados?". O caso agitou o país e agora, em março de 2017, 3 anos depois e depois de 19 dos 23 juízes do Conselho Disciplinar terem recomendado o seu afastamento, o juiz Robin Camp "aceitou" demitir-se. Foram precisos 3 anos para que justiça fosse feita contra a própria justiça. Foram precisos 3 anos para este homem poderoso baixar o ego e perceber que não tem coração.    

Sir Robin Camp, começo por dizer-lhe que tenho muita pena de não lhe poder dirigir umas palavras cara a cara. Provavelmente eu iria sair a perder, porque à boa maneira portuguesa ia começar por lhe dirigir uns quantos palavrões libertadores. Não tenho por norma usa-los, cresci na base da boa educação e dos bons princípios, mas quem defende violadores, merece ouvir as mais reles palavras que constam no nosso dicionário. E olhe que não são poucas. Creio que temos as melhores expressões da história.

Perguntar a uma vítima de violação porque não fechou as pernas é o mesmo que perguntar a alguém que se esqueceu das chaves dentro do carro porque as deixou lá. Ou a alguém que partiu um prato porque o deixou cair. Não consigo conceber como é que alguém com suposta capacidade intelectual superior consegue proclamar uma frase tão machista, desrespeitosa e despropositada quanto esta durante um julgamento. Precisamente um julgamento de uma vítima de violação. Faz ideia do que é abusarem de um corpo sem permissão? Nem os animais o fazem. Talvez a sua mãe é que devesse ter fechado as pernas. Perdão, está a ser difícil para mim manter o nível.

Sir Robin Camp, para mim, o senhor é tão violador quanto o arguido (que imagine-se, acabou por absolver). É violador de direitos humanos, é violador do respeito por outrem, é violador de mentalidades, é violador da igualdade, e o mais grave de tudo... é violador da própria profissão, que se quer imparcial. Naquela sala de tribunal tornou-se tão violador quanto o verdadeiro violador. Aposto até que tem uma mente tão suja quanto a do sujeito presente a tribunal dadas as vezes que durante o relato, que pude ler aqui, pediu à vitima para repetir como é que o violador lhe tirou as cuecas. Sabe, gostava de o mandar para o sítio onde os adeptos de futebol mandam os árbitros no final dos jogos. E mesmo assim ia saber-me a pouco.

E o pior de tudo é que o seu interrogatório não se ficou por aí, ainda teve coragem de dizer à vítima que "por vezes, o sexo envolve dor" e de sugerir que ela "enfiasse os genitais pela sanita abaixo para evitar a violação", continuando a não conseguir encobrir o seu lado porco e machista. A menos que a vítima fosse uma atleta de pesos pesados ou uma lutadora de Sumo, aqui neste pequeno país de onde eu venho, ainda nunca se conseguiram evitar violações por manter os joelhos fechados. Nem aqui, nem em lugar algum do planeta. Infelizmente, nós, as do sexo feminino, temos menos força física, uma conclusão com dificuldade de grau zero que parece não ter querido conseguido atingir. 

Ali, naquela sala de tribunal, o seu papel foi desumano, ímpio e vergonhoso. A vitima sentiu-se tratada como "uma prostituta" e passou por uma fase de "ódio" do próprio corpo. Será que com a sua idade (mais de 60 anos) não tem, no mínimo, ideia das consequências psicológicas de uma violação? Como pôde dar razão a um violador e ainda proclamar frases que de forma dissimulada e ao mesmo tempo tão direta incitaram a que a jovem é que se pôs a jeito? Ela estava mesmo a pedi-las não era? Realmente nós mulheres somos cá umas frescas, gostamos de sair à noite com pessoas que até conhecemos, gostamos de beber um copo, pôr maquilhagem, usar lingerie rendada e ainda achamos que só podemos fazer sexo com quem consentimos! Onde é que já se viu tamanha liberdade? 

Estou cansada de ver notícias como estas, de perceber que não se tratam dos meus pesadelos absurdos causados pela medicação para a ansiedade, mas sim da realidade do mundo em que vivemos. E muitos homens ainda perguntam porque somos feministas? Porque estamos cansadas do sexismo gratuito, desde o piropo que vem do andaime da obra, ao cobarde que bate na mulher para se fazer valer ou ao alto cargo de poder que desrespeita a secretária. 



Mas sabe uma coisa, lá no fundo tenho pena de si, por ter uma alma tão pobre. Felizmente, o Conselho Disciplinar decidiu que "era profundamente destrutivo o seu conceito de imparcialidade (…) e que a confiança pública foi suficientemente minada para continuar a ser o juiz ". Não se demitiu porque quis, mas sim porque foi forçado. E sabe o que me dá ainda mais gozo? Ter a certeza de que o comité de inquérito do Conselho Disciplinar que o afastou do cargo era formado por 5 mulheres. 

No final de contas, o veredito foi nosso. You lose! We win! 

Foto créditos: Google

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