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#AS BIRRAS BOOMERANG

19 setembro 2016


Texto: Raquel Rodrigues
Colaboração: Vânia Sá, Psicóloga Clínica e psicoterapeuta


Com uma frequência diária de 3 vezes por dia a 3 vezes por hora, dependendo do mood da criança, as birras boomerang são tão desesperantes quanto a TVI ter voltado a apostar na Casa dos Segredos. As birras boomerang, chamo-lhes assim porque são persistentes e insistem em ir e vir, são aquelas que os nossos filhos teimam em fazer todos os dias, por volta da mesma hora e sobre determinado tema. 

Há birras boomerang e o Duarte faz parte das crianças que as tem. Vejamos:1) nunca quer tomar banho, seja mal chega da creche seja antes de dormir, a hora para tomar banho nunca lhe é favorável, e vai daí toda uma birra que se segue de uma argumentação estruturada sobre os benefícios de tomar banho, de não poder cheirar mal ao pé dos amigos e que termina noutras vezes numa forma chantagista “se não tomas banho não há brinquedos”.Noutras ocasiões vai a espernear para dentro da banheira e pronto. 2) não quer que o banho acabe, esta também faz parte do prato do dia, depois da luta para o enfiar lá dentro (quase sempre tarde e a más horas), segue-se a batalha para o banho acabar “só mais um bocadinho” – enquanto segura firmemente do chuveiro com a mão e chora como se estive a tomar nas águas cristalinas das Caraíbas, enquanto eu lhe explico que “tem que ir dormir porque amanhã é dia acordar cedo para a escola”.

As birras boomerang também causam educação boomerang, que é nada mais nada menos do que repetir a mesma explicação todos os dias pelo mesmo motivo na esperança de que um dia a explicação encaixe lá nas memórias diárias (tipo o filme Divertidamente) e crie raízes.  Esta fase pode levar as mães à exaustão ou causar alguma irritabilidade. Ter vontade de os meter logo na cama também poderá ser um dos sintomas. 

Outro exemplo é 3) a birra do jantar, já sabe que a sopa vem sempre em primeiro lugar, mas não há dia em que não faça cara de amuado e não tente negociar comer uma bolacha de chocolate antes da sopa ou qualquer outra “porcaria” qualquer. E com 3 anos e meio isto já não vai lá com aviõezinhos. 
Depois também temos lá em casa a famosa birra do 4) “está tudo bem, mas apetece-me dizer que não a tudo”. Como diz a minha amiga, e psicóloga Vânia Sá, “estas birras subentendem um “não” das crianças, elas dizem que não a algo que os pais dizem que sim. As crianças estão assim a testar o efeito do seu não, testando a solidez e coerência das relações enquanto se afirmam como seres com vontades próprias em processo de criação do seu eu/ da sua identidade”. Lá por casa esta ocorre muito quando a atenção não está virada para ele, por exemplo, quando eu e o pai estamos a tentar ter uma conversa a dois. Como não é bem-sucedido em captar a atenção porque “os pais também precisam falar” lá vem o boomerang direito a nós – tau!

E nós? Nós ficamos a sentir-nos as mais-chatas-à-face-da-terra, as que parece que estão sempre a dizer “NÃO” às mesmas coisas e a contrariar os filhos durante o pouco tempo livre que nos resta com eles. Só espero que isto mais tarde produza efeito e que ele me perdoe todos estes “nãos” e as algumas faltas de paciência. 

Mas tudo isto faz parte do processo de crescimento “as crianças precisam aprender a lidar com contrariedades, com momentos de frustração, e a conhecer os seus limites, para mais tarde serem também adultos capazes de definir o certo e o errado e, sobretudo, saberem dizer não”.
Não existem (nem são necessários) pais perfeitos. Os pais que ajudam a crescer em harmonia são pais suficientemente bons - pais justos, afetuosos, coerentes e confiáveis. Pais capazes de amar, mas capazes de frustrar.  A vida vai apresentar-lhes muitos “nãos” - que possam começar a aprender a geri-los no mesmo sitio onde são amados e onde também aprendem a amar” sublinha a Vânia. 

Para não desesperarem e isto ir lá com mais jeitinho e calma (eu que só tenho o ensinamento da maternidade para vos dar), podemos sempre supor que tomámos um Xanax e usar o efeito placebo para evitarmos dizer logo “NÃO” e ter paciência para, em primeiro lugar, aplicar a regra da explicação: e eu, mesmo cansada dos terrible threes, tento sempre esta primeiro! 
Há por ai mais príncipes e princesas com birras destas?

Foto credits: Google 


1 comentário

  1. Tudo igual por aqui!
    Um Duarte, 3 anos (mas já passei por isto com o João actualmente com 8 anos) e as birras constantes e os testes à nossa sanidade mental.
    Optei e opto (ás vezes é impossível!!) por tentar a conversa, a escuta activa, fazendo-lhe ver que o não tem duas faces e que nem sempre pode fazer o que quer. A maternidade é um desafio todos os dias! Beijinhos

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