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#ONTEM CRIANÇA, HOJE MÃE: CARTA AO MEU FILHO!

01 junho 2017


Era pequena, fazia roupa para bonecas, sonhava ter um cão e ser jornalista ou veterinária. 

Pelo meio, pedia incessantemente um irmão, ou uma irmã, biológico ou adotado, não importava. Para meu azar, não tive o biológico por infertilidade inexplicada. E também não tive o adotado porque os meus pais não quiseram seguir essa via. Estavam no direito deles. Ainda assim, só deixei de acreditar que ainda poderia vir a ter algum dia um irmão quando aos 46 anos a minha mãe retirou um mioma e com ele todos os órgãos reprodutores. Chamem-me louca ou sonhadora, mas eu queria mesmo esse milagre. Não aconteceu e não sei se algum dia conseguirei meter uma pedra sobre o assunto. Foi a única coisa que me ficou a faltar na infância. 

Tive os brinquedos, a melhor amiga de infância, que ainda hoje preservo, os peixes, os hamsters, as tartarugas, e…  mesmo sem Natal, as Barbies, o Nenuco, o Chorão, o Dentinhos (aquele boneco cujos dentes nasciam depois de beber o biberão), o Monopólio, o Uno, o triciclo vermelho de ferro, o cavalinho de madeira, o jogo de tétris comprado na feira cujas pilhas estavam sempre gastas, os livros da Anita… e até o cão, já bem mais velha. Fui feliz, tive amor, atenção, carinho e tive com peso e medida tudo o que fazia uma criança feliz na década de 80. 

Quando saia com a minha mãe, fixava os adolescentes em bando na paragem do autocarro e queria crescer depressa, ganhar asas para voar, ter o meu grupo de amigos, queria sair debaixo das saias da mãe e sentir-me útil e importante. 

Quando via o meu pai a ver notícias, sonhava ser jornalista para viver aventuras e para o meu pai me ver do outro lado do ecrã. Quando tratava da minha cadela sonhava ser veterinária para passar a vida rodeada de animais numa clínica ou até mesmo no Zoo. Sim, era esse o meu dream job da infância. 

Hoje, acho essa pressa uma coisa parva, tão parva. Talvez porque viva numa pressa constante de tudo, de me vestir, de sair de casa, de deixar o jantar planeado, de não me esquecer do saco do ginásio, de trazer almoço e lanche, de planear a semana atual e o futuro vindouro, de cumprir as metas no trabalho, de não deixar derrapar timings. Tanta pressa que existe numa agenda sobrecarregada que cansa só de pensar. 

Se voltasse àquela paragem com 7 anos e olhasse agora para os crescidos não teria certamente tanta pressa. Tenho saudades de ser criança e a única preocupação que existia era acabar os TPC´s para descer a rua e poder ir brincar com a minha melhor amiga ou com o vizinho do lado que tinha sempre as pistas de carros mais espetaculares.  É a vida no seu estado mais puro, sem doenças, ansiedade ou medo do futuro. É a vida que nunca mais volta.

Por isso, não tenhas pressa filho. Desacelera quando me perguntas se falta muito para teres 10 anos e ser crescido. Desacelera quando me dizes que já falta pouco para os 5 anos. Desacelera quando me dizes que queres ser jogador de futebol e piloto de aviões. Desacelera quando já queres saber todo o abecedário e fazer contas de somar. Tens tempo. Tens tempo para escolher o teu rumo. A vida adulta dura muito mais do que a infância, por isso aproveita-a. É esta a mensagem que tenho para ti, filho:

Foca-te na brincadeira, ignora o calendário. Cria o teu ritmo de aprendizagem. Descobre o mundo que te rodeia sem o tic tac do relógio. Não há nada melhor do que fazer as coisas pela primeira vez. De viver sem horários impostos. Assimila tudo, saboreia o momento, as conquistas, a liberdade, a vida e as amizades. 

Descobre o mundo, mas sem pressa! 

Vai longe, mas sem pressa! 

No que me diz respeito, vais ter tudo a que tens direito durante a infância.
Com amor...
 
da tua mãe que ainda hoje é uma sonhadora! 

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