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#COOL(ABORAÇÕES | PSICÓLOGA IRINA VAZ MESTRE | OS FILHOS PATRÕES!

22 novembro 2016


Texto: Raquel Rodrigues
Colaboração: Irina Vaz Mestre, Psicóloga e Autora do Blog Voltar à Estaca Zero

Ainda nem ao ensino superior chegaram e já têm a mania que dão ordens lá em casa. Os filhos patrões gritam e têm momentos de autoridade em que querem mandar nos pais, nos avós ou simplesmente no cão ou no gato. 

Lá em casa estamos a viver esta fase do “Duarte mandão” e eu confesso que cada episódio me faz entrar em ebulição interna, seguida de muitas inspirações e expirações. “Mãe sai da casa de banho já” diz ele quando está aflito para ir fazer xixi ou cocó, “Renato, para a cama já” diz ele ao gato enquanto aponta com o dedo em direção à garagem na hora de ir dormir. E eu pergunto-me, será ele uma criança autoritária ou estará apenas numa fase de teste de limites na primeira infância? Como podemos distinguir personalidade de imitação? Penso nisto pois ele ouve-nos dar ordens aos cães e aos gatos todos os dias, será apenas um decalque do modelo familiar ou a revelação de uma vindoura personalidade autoritária? Assumindo que isto é apenas uma fase comum no desenvolvimento das crianças e que não devo estar sozinha nesta questão, bem-vindas a mais um, eu pergunto, a Irina explica. 

Porque é que as crianças pequenas tendem a ser autoritárias? Como lidar com o autoritarismo na primeira-infância?

Ainda que se saiba que cada criança tem o seu próprio ritmo e a sua própria forma de ser e de estar que a individualiza e caracteriza, as principais fases do desenvolvimento de uma criança são previsíveis e vão sendo descritas na literatura, para que também nós, pais, nos possamos orientar e perceber que padrão está para vir com determinada idade. Assim, é já sabido que, por volta dos 2 anos de idade, todas as crianças vão passar pela fase em que se sentem os Reis lá de casa. Continuam a ver-se como o centro do mundo e começam a querer comandar e a organizar tudo e todos. Manifestam a sua independência, ainda que se sintam muito inseguros. Querem e não querem. Aceitam e não aceitam. E normalmente é aqui que se iniciam as guerras de poder entre os pais e a criança. Também é nesta fase que se torna muito importante que os pais consigam perceber as verdadeiras necessidades dos seus filhos, de forma a tornar esta fase mais suave. Posto isto, uma boa forma de lidar com o “autoritarismo” na primeira infância passa por nós próprios, pais, deixarmos cair por terra o nosso “autoritarismo”, evitando assim guerras e quezílias entre pais e filhos. Não se trata de sermos permissivos; pelo contrário, trata-se de querermos deixar de controlar o outro e aceitar que chegou a altura da criança assumir responsabilidade pessoal. Esta é a fase em que a criança começa a demonstrar uma grande vontade de fazer as coisas sozinha e está a aprender a tornar-se independente.   

Como podemos “desviar” esse comportamento?

Este é, de facto, o primeiro mito que nos surge. Achamos que devemos “desviar” este comportamento e, ao acharmos isso, estamos a intensificá-lo ainda mais. Nesta fase a criança protesta muito e diz frequentemente a palavra “não”. Achamos que devemos fazer algo para que ela aceite o que lhe dizemos e para que proteste cada vez menos. Mas sermos pais conscientes (parentalidade consciente) significa, nada mais, nada menos, educar para crescer. Se, quando os nossos filhos chegam à idade da independência, queremos contrariar essa vontade, então não estamos a educá-los para crescerem. Estamos sim a ser autoritários e controladores, e este é, inevitavelmente, o modelo que lhes vamos passar. Sugiro então que, num primeiro momento, alteremos a nossa forma de comunicar, que passemos de uma comunicação autoritária e controladora para uma comunicação que reconhece a vontade do outro e que comunique confiança: “Sei que queres muito lavar os dentes sozinha/o. Que tal seres tu a lavar primeiro e, no fim, só dou uma ajuda” em vez de “Não podes lavar os dentes sozinha/o, porque és muito pequena/o. Vão ficar todos mal lavados. Eu lavo”. No entanto, não esperem que os vossos filhos aceitem tudo o que lhe dizem com um sorriso nos lábios. Eles vão continuar a querer fazer tudo sozinhos. Porém, desta forma, estão a ensiná-los a comunicar eficazmente as suas necessidades em vez de protestarem as suas necessidades de forma autoritária. Ao enveredarmos por este caminho da comunicação consciente estamos a fortalecer o bom relacionamento familiar. Na verdade, a comunicação é o caminho que nos leva à colaboração. 

Enquanto pais, quais são os desvios na personalidade a que devemos estar atentos?

Enquanto pais, e aqui falo na perspetiva da Parentalidade Consciente, que é aquela que nos últimos tempos tenho aprofundado e adotado, o foco da nossa atenção está no entendimento do comportamento e na procura da resposta à pergunta “porquê”. Assim, a que devemos estar atentos é precisamente ao “porquê” daquele comportamento. Proponho que sempre que nos deparemos com “um desvio na personalidade” acionemos o detetive que há dentro de nós e tentemos perceber quais são as necessidades que estão por detrás daquele comportamento. É curioso que fazemos sempre isso quando os nossos filhos são bebés. Preocupamo-nos em descobrir a causa daquele comportamento e vamos ao encontro das necessidades do nosso bebé, tentando suprimi-las. Quando os nossos filhos crescem, deixamos de dirigir a nossa atenção às suas necessidades e focamo-nos apenas no seu comportamento. Queremos mudar o seu comportamento. Queremos que deixem de ser assim. Mas, e são assim porquê? Como refere a querida Mikaela Öven, minha mentora e guia neste caminho da Parentalidade Consciente: “Se conseguirmos agir em relação às necessidades, o comportamento também vai mudar. Quando a necessidade está satisfeita, o comportamento em questão deixa de fazer sentido”.

Enquanto mães, como podemos conduzir esta fase com Mindfullness?

O Mindfulness tem sido, para mim, uma ferramenta fundamental. O estado da nossa consciência faz a diferença. Se estivermos sempre stressados, ansiosos e preocupados, acabaremos por ter filhos e educar filhos neste registo de energia. O mindfulness permite-nos e ensina-nos a observar os nossos pensamentos como se de uma testemunha nos tratássemos. Permite-nos parar e orientar o nosso foco. Dirigir a nossa atenção. Enquanto mães, podemos superar os desafios que a maternidade nos oferece com uma atitude mindful. Parar, respirar e focarmos a nossa atenção em três perguntas, que nos ajudarão a encontrar respostas que, por sua vez, nos levarão a saber como agir:

1. O que está o meu filho a tentar comunicar e qual é a necessidade em falta?
2. Qual é a minha intenção?
3. Qual é a melhor forma de agir de acordo com a minha intenção?

Por intenção entenda-se a forma como queremos assumir o papel de pai ou de mãe. E estes são os intuitos que nos podem servir de guia quando temos dúvidas sobre como agir. Na verdade, refletirmos sobre as nossas intenções é o ponto de partida para uma Parentalidade Consciente e devemos sempre voltar a elas de cada vez que nos sentimos inseguros ou a vacilar num momento de angústia, impulsividade e conflito. 


Beijos nossos,

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