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#A SOCIEDADE DOS JUÍZOS DE VALOR!

31 janeiro 2018





Vivemos numa sociedade de julgamentos fáceis e constantes. Faz parte de nós. É feio, mas inevitavelmente faz.

E o que acontece é que muitas vezes achamos que somos diferentes dos "outros" e que não somos esse tipo de pessoa, mas somos. É difícil admitirmos que julgamos, mas a verdade é que mais facilmente julgamos alguém do que nos posicionamos do outro lado para analisar perspetivas. E fazemo-lo todos os dias - ao olhar para aquele vizinho que nunca sorri, na caixa do supermercado com a empregada sisuda, ao ler o jornal e comentar determinada pessoa, a ver a pessoa x na rede social, etc. 

Acaba por ser contraditório, pois não gostamos que nos façam a nós, mas é como se tivéssemos uma arma carregada sempre pronta a usar quando alguma atitude foge dos nossos padrões. 

Houve uma situação a semana passada que me fez pensar mais a fundo neste tema. Podem achar uma comparação ridícula, mas para mim é válida, pois fez-me refletir. Veio parar aqui à nossa rua um cão abandonado de grande porte, jovem, com alguma agressividade e muito medo. fez vários estragos nos jardins dos vizinhos ao invadir as propriedades e destruir tudo o que encontrava pela frente, desde tapetes, a plantas, mangueiras, etc.
 
Não sendo de ninguém das redondezas e depois de publicado um anúncio para tentar encontrar o dono, as entidades competentes foram contactadas. E começou ai um sacudir da água do capote. 

Percebi infelizmente que existem de facto muitos canis e associações voluntárias, mas ninguém com disponibilidade e capacidade imediata par dar resposta, atuar e ajudar. Desconhecia totalmente esta realidade. 

O Canil Municipal X chutou para o Canil Municipal Y, alegando não ter espaço, a associação voluntaria A da zona (a que acredito ter mais dificuldades) idem aspas e a polícia, que nada pode fazer, mandou-nos voltar à casa de partida: o canil municipal do concelho, que a custo lá disse que "quanto muito podemos ir ver se tem chip, mas trazê-lo não". 

E nós fazemos o que? Ficamos a vê-lo morrer à sede e à fome? Nenhuma instituição se mostrou disponível ou recetiva a ajudar, como se assim de repente fossemos forçados  a ter que adotar mais um cão ou como se fosse culpa nossa ele ter vindo aqui parar e não dos supostos donos que o abandonaram. E é aqui que queria chegar. Todos assumimos que foi abandonado, até pelo comportamento de medo, mas, será que não o andam a procurar desesperadamente porque fugiu? Não sabemos. A verdade é essa. Nunca sabemos. 

Aqui já vivem 5, portanto seria um perfeito disparate ficar com mais um, além de ser imprudente (os meus machos não iam aceitar) e não ter capacidade para alojar mais um sem comprometer as condições dos meus. Acabou por ser um vizinho a apanhá-lo em desespero e levá-lo para a porta do canil. Se o fez de forma feliz? Não. Se o fez sem remorsos? Não. Mas a situação não foi gerada por nós e as entidades responsáveis existem por algum motivo.  Mas sabem o que aconteceu? Quando o levou, teve medo de ser visto e ser julgado por estar a abandonar um animal na via publica. Até eu teria. 

Vejamos este cenário: ele abre o porta bagagens do carro, retira um cão jovem de grande porte e deixa-o à porta do canil. Todas as pessoas nesta situação vão apontar o dedo e julgar "o cão cresceu e agora desfazem-se dele, que vergonha". E o individuo x fica julgado dessa forma para todo o sempre. Porquê? Porque nunca ninguém vai sequer imaginar o verdadeiro cenário, tendemos a ir logo para a pior das hipóteses. E é sempre mais fácil partir para o julgamento imediato.

Há uns tempos todos vimos um vídeo de um senhor a atirar um gato para um jardim, foi criticado severamente na TV por estar a praticar o abandono. Será que estava? Ou será que se estava apenas a tentar livrar-se de um "problema" depois de lhe ter sido negada ajuda em todas as portas? Ele até pode ser o lobo mau desta história e ter praticado mesmo um abandono, mas deu-me que pensar. Nunca vamos saber a outra versão da história senão perguntarmos.

Não queria voltar ao Super Nanny, que até já está em stand bye (ainda bem!), mas voltando levemente ao tema, todos julgámos aquela mãe e apontámos o dedo nos dias seguintes, inclusive eu coloquei em causa se ela saberia bem ao que ia ou se até o fez por dinheiro. E os motivos que desconhecemos? Estará a passar por sérias dificuldades financeiras? Só ela sabe o que a motivou, só ela sabe verdadeiramente a qual a face certa da moeda.
 
Outra situação frequente que sinto nesta fase da vida quando vou ao supermercado é o julgamento fácil que se lê no olhar das pessoas "se está boa para vir às compras, está boa para esperar na fila". Passamos a vida nisto. Somos bons apontadores e maus analistas, porque nos contentamos sempre só com um dos lados da moeda. 

O julgamento tende a anular a nossa reflexão. Uma coisa são juízos de valor, outra são juízos de facto, quando sabemos claramente o que se passa, como na ciência. Tenho a certeza que já todos nos sentimos julgados de forma equivocada, por uma resposta que demos que foi mal interpretada, por uma atitude mais estranha, por um comportamento que sai do padrão, etc e nos sentimos injustiçados. Por isso, vamos tentar julgar menos e respeitar mais? 

A nossa perspetiva das coisas não é única. Nunca conhecemos uma história completa quando julgamos alguém.


Fica para refletir! 

Beijos e continuação de boa semana!


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