2

#A MENINA QUE NUNCA TEVE NATAL!

22 dezembro 2017

Poderão achar este post um pouco ambiguo, até porque o Natal está à porta e é um tema que abordo com frequência aqui no blog. Sei até que aos olhos de quem está desse lado pareço uma pessoal "normal" (e sou), mas com algumas particularidades.
Nunca tive Natal. Sou a menina que cresceu noutra religião, a dos pais, e que foi educada segundo a sua fé. Umas vezes íamos para a terra e estávamos com toda a família, pelo simples facto de que era a altura em que conseguíamos estar todos reunidos (eram dias simples e bons), outras vezes ficávamos por casa a fazer vida normal. Não os culpo por nada, respeito-os até por serem tão fieis à sua fé. 

"Não existia árvore de Natal, troca de prendas, compras de Natal, listas de presentes, histórias de natal, decorações, globos de neve, passeios... O Natal só era Natal porque o via na TV e nas montras, mas ainda assim, nada comparado com o presente. E, como nunca tive Natal, nunca me fez falta. Não podemos sentir falta daquilo que nunca tivemos e não sabemos como é. Parece estranho, mas é a mais pura verdade."

Cresci, por isso, com uma relação nula com esta quadra e só quando me tornei mãe comecei a olhar para o Natal, mas sem saber bem onde me situar. Como não tive educação católica, não me fazia sentido começar a encher a casa de Natal e contar a história universal do menino Jesus, cuja versão nem é a que me foi ensinada. Por outro lado, não queria que o Diogo se sentisse sozinho na missão de dar um Natal ao Duarte e comecei a criar aos poucos a nossa versão do Natal, que para mim passa por torná-lo especial para ele, através de passeios, momentos em família e atividades, como as outras famílias fazem. 
Passaram quase 5 anos e a verdade é que já adotei quase todas as tradições, como montar a árvore (nos primeiros anos essa parte pertenceu ao pai), decorar a casa, fazer bolachas, criar um calendário do advento, este ano, pela primeira vez, até fiz um personalizado cheio de pequenas atividades para o Duarte. Mas continuo a sentir que ele não me pertençe, porque nunca foi meu e nunca me foi enraizado. Consigo, no entanto, sentir alguma magia, até porque sou particularmente dada a trabalhos manuais e à decoração (coisas que me estiumulam). Mas continuo e vou continuar sempre a ter uma relação de amor - odio com o Natal.  
Não lido bem com o consumismo levado ao extremo, com a "obrigação de dar", com as listas intermináveis de presentes para toda a família, como se fosse obrigatório termos capacidade de só dar bons presentes, daqueles que enchem o olho. As pessoas perdem-se no Natal e exageram no "espírito". E eu cá ando, ano após ano, a procurar o meu lugar, a fazer contas, a planear listas, a reduzir listas e a limitar despesas para fazer cumprir o Natal. E sinto que a rotina é a mesma todos os anos e às vezes cansa-me. É claro que gosto de dar e receber presentes, também os recebi na infância (nunca me faltou nada), mas vinham de forma espontânea e sem anuncio prévio. Gosto de dar boas prendas sempre que posso, gosto de poder cumprir alguns desejos do Duarte, mas não gosto da obrigatoriedade da época e da sensação que deixa nas crianças de que é obrigatório receberem prendas. Causa-me alguma ansiedade esta época. Um misto de felicidade por saber que o Duarte vai delirar com algumas prendas com um misto de angustia por pensar "e se algum dia eu não puder dar e o desiludir?".
 
Do que gosto verdadeiramente no Natal e espero passar ao Duarte:
Gosto dos jantares com amigos, das reuniões familiares, das fotos caseiras, do cheiro a filhoses da minha avó, da lareira, das luzes nas ruas, do assador de castanhas, dos bombons com recheio de avelã, de fazer trabalhos manuais com o Duarte, do bolo rainha, do bacalhau, do tabuleiro de bolachas de gengibre no forno, das prendas caseiras que faço, das tardes de filmes e do pijama polar. Gosto de ver coisas bonitas e por isso gosto das formas, dos detalhes e da "estética" do Natal, e é nisso que me deixo levar. E apesar de ficar irritada com gastos supérfluos, gosto da parte de mimar e dar presentes homemade.  
  

Mentiria se disse-se que não tenho desejos materais e vontade de comprar coisas que gosto, partilho algumas por aqui pelo blog (todos temos desejos), mas sei que posso passar perfeitamente o Natal sem receber prendas que não me faz diferença, quando quero algo que gosto e posso comprar, compro, quando não posso fico só pela utopia. Prefiro que capitalizem as prendas para os meus, para o Duarte e para o bebé a caminho.  Os meus pais nunca me deixaram faltar nada, sempre tive acesso a tudo, sem datas e momentos "obrigatórios" e talvez por isso tenha esta espécie de “toca e foge” com o Natal. Gostava de sentir mais o espírito e menos a "obrigação". 

Por isso, vou continuar a apostar num natal mais minimalista e mais descomplicado, onde o "estar presente" é superior ao valor material das prendas entregues.
  
Para o bem e para o mal, esta sou eu, ano após ano a sobreviver ao Natal, a gostar um bocadinho mais de algumas coisas e cada vez menos de outras.
Beijos,

2 comentários

  1. Raquel presumo que tenhas crescido como TJ, coisa que respeito e muito. Eu sempre festejei natal, mas é uma época de exageros e consumismo. Não podia concordar mais contigo..feliz natal <3

    ResponderEliminar
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar