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#RESPOSTA À COMENTADORA "A GRAVIDEZ NÃO É DOENÇA"

28 novembro 2017


Não sou de destacar comentários de leitora(e)s, até hoje nunca o fiz, até porque acredito na liberdade de expressão e gosto que se expressem por aqui, no entanto, gosto que as coisas sejam fundamentadas e não sejam clichés em estado puro atirados para o ar. E isto é da argumentação mais barata e vaga que existe:
 
"A gravidez não é doença é um estado de graça."

"Não é doença não senhora, mas também não é todooo esse estado de graça. E as grávidas que o digam. Este é aquele argumento básico que serve para todos aqueles que não dão prioridade às gravidas nas filas... e já agora aos idosos e aos deficientes. Para estas pessoas, há sempre uma justificação, se for um idoso o discurso muda para "está reformado, tem tempo para esperar", se for uma pessoa com limitações basta um "para quem vem para aqui?", uma grávida gira e arrumadinha "até está com bom ar, para que precisa da prioridade?".

Este foi o comentário deixado por uma leitora (uma mulher, o que ainda me deixa mais triste) no post que fiz sobre as prioridades na gravidez, o qual acredito que esta leitora nem tenha lido, provavelmente leu apenas o que escrevi no Facebook, pois se tivesse lido teria visto que até nem ando por aí a empinar a barriga e a aproveitar esta bola que carrego no ventre para jogar bowling nas filas e passar à frente de toda a gente.  

Se tivesse lido teria visto que era um post reflexivo sobre o estado da sociedade em geral, onde aquilo que tenho observado é que todas as pessoas fazem vista grossa a uma lei que existe para melhorar as acessibilidades das gravidas, idosos, pessoas deficientes e mulheres com crianças de colo. Somos egoístas por natureza, admitamos. 

Acredito piamente que só diz uma coisas destas quem nunca passou por nenhuma destas situações. Convido a leitora a ler as dezenas de comentários deixados no post por grávidas e mães, que infelizmente só atestam aquilo sobre o que senti necessidade de desabafar - a falta de civismo com que vivemos.

Mas já agora, vou também partilhar a minha visão sobre "o estado de graça". Não sei quem inventou esta expressão, que tem tanto de certo como de errado.

Aos olhos de terceiros a gravidez é um estado de graça, eu também a via dessa forma quando em miúda me imaginava a ser mamã...pintava tudo de cor de rosa, até estar grávida pela primeira vez e ouvir da boca da médica "não conte a ninguém, ainda é cedo, pode perder, nada de esforços", começa ali no positivo uma mudança comportamental na mulher grávida que até às 12 semanas tem que levar uma vida mais regrada e evitar pesos e esforços.

Após as 12 semanas e a ansiedade dos primeiros exames respira-se de alivio, mas nunca a 100%. Lidamos com enjoos, quebras de tensão constantes, azia, dores lombares, idas ao wc de 5 em 5 minutos, noites sem posição, sonolência, cansaço, o coração bombeia mais para alimentar o útero e todo o nosso corpo está numa transformação louca. Continuamos a fazer tudo como antes, mas a outro ritmo. 

Na primeira gravidez trabalhei até às 37 semanas, no final já sem posição para estar sentada, mas como tudo corria de feição, ir para casa olhar para as paredes não me fazia sentido. Nesta não sei até onde vou, mentalmente tenho a mesma meta, fisicamente tenho tido mais contratempos, e como isto não é uma ciência exata e não existem gravidezes iguais, a minha história está por escrever. 

A gravidez obriga-nos a quebrar as rotinas e a reajustar tarefas. Limita-nos os movimentos, apresenta-nos a dor ciática e a dor pélvica e uma série de outras pequenas coisas que compõem o nosso dia a dia, seja no trabalho, seja nas idas ao supermercado ou à farmácia.

"A sociedade espera que as mulheres grávidas sejam as pessoas mais bem-dispostas, saltitantes e bem-humoradas do mundo, só pelo simples facto de carregarem um bebé. E a responsabilidade que isso aporta? A gravidez acarreta muitos cuidados com o corpo e uma invisível pressão psicológica". 

Concordo que a gravidez não é doença, mas não deixa de ser uma condição especial e até clínica. Não é à toa que são precisas 40 semanas para tudo se formar e que temos tanto acompanhamento médico, tantas recomendações, e tantas restrições alimentares e físicas (salvo algumas exceções e não somos todas Carolinas Patrocínios). Bem sei que antigamente não havia cá nada disto, e que este também é um argumento usado vulgarmente, mas a taxa de sucesso de nados vivos também não era tão grande, a ciência evoluiu e contribui para melhores condições para todos, felizmente. 

Por isso, considero que é um estado de graça, sublime! Com tantas privações o mínimo que cada gestante deve ter é o direito de aproveitar a gravidez de forma tranquila e sem faltas de respeito na rua, sem ter que ouvir a cada prioridade dada o famoso cliché "gravidez não é doença"! 


"A gravidez realmente não é doença, doença é o egocentrismo de uma sociedade que precisa de argumentos triviais para desculpar a falta de boas maneiras."

Por aqui chegou a altura de acabar com os esforços devido a algumas complicações..., portanto se a partir de agora puder usufruir do meu direito de prioridade para estar menos tempo em pé numa fila, nem vou hesitar. E até posso estar muito gira e maquilhada, com o melhor ar do mundo, mas quando olharem para uma gestante lembrem-se que não fazem ideia qual é a condição clinica dela. 

Não queremos ser tratadas como princesas, nem precisamos de passadeira vermelha, apenas queremos respeito. 

Photo credicts: Google 

1 comentário

  1. Há dias fui ao Continente e a única coisa que comprei foi um livro infantil. Estava acompanhada do meu sobrinho de 11 meses que estava ao meu colo e sozinha e as 4 caixas que se encontravam abertas estavam cheias. Coloquei-nos numa das filas e ali me mantive... As pessoas olhavam para nós e desviavam o olhar a rapariga que se encontrava na caixa a atender procedia da mesma forma. Farto que estar na fila como é compreensível começou a ficar irrequieto e as pessoas continuaram todas a ignorar. Chegada a nossa vez perguntei à rapariga se não estava a par da lei da prioridade e se das 3 vezes que olhou para nós não nos conseguiu ver. Fiz questão de apresentar reclamação por escrito e de deixar lá o livro. É triste mas a nossa sociedade é de um egoísmo e egocêntrismo brutal. Bjnh Raquel

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