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#O QUE SE DIZ A UM FILHO?

26 junho 2017

Hoje o despertador tocou cedo e tive vontade de voltar aqui. Talvez porque o corpo sabe que é dia de voltar à rotina em todas as suas formas: trabalho, trânsito, creche, ginásio, casa - e ainda bem! Fui de férias e levei comigo tudo que precisava para manter o blog atualizado, era essa a minha intenção quando saímos de Lisboa rumo a sul: ir partilhando os locais por onde andámos em modo "para fora cá dentro". E foi o que fiz na primeira semana.

Mas depois de ter estado na festa de reabertura do Zmar, um sítio que ardeu no fim do verão de 2016, chegar ao bungallow animada, em modo celebração, ainda a ouvir a música de fundo, ligar a TV só para um zapping rápido e tomar consciência do que se estava a passar em Pedrogão Grande foi como se as minhas palavras se tivessem esgotado ali. O Duarte já dormia e nós continuávamos incrédulos em frente à TV a ver a tragédia aumentar à medida que as horas passavam. Era impossível, mas não era um pesadelo, era impossível, mas estava a acontecer. E na manhã seguinte o cenário trágico tinha mais que duplicado. 
 
Nessa noite não escrevi, no seguinte também não e preferi não o fazer até sentir vontade de regressar aqui. Perante perdas humanas tudo se torna fútil e supérfulo: o bikini, o mergulho, a praia bonita, o petisco, o pôr do sol. Limitei-me a deixar rasto no Instagram e a aproveitar as férias junto dos meus - grata por os ter comigo e por saber que toda a família estava bem. Quando fico triste  entro em registo de silêncio, é algo muito meu, defeito ou feitio, virtude ou fraqueza, ainda não sei bem. Talvez o silêncio seja a minha forma de luto, talvez seja uma forma de me isolar para pensar e tentar encontrar respostas ou talvez seja "só" a minha forma de lidar com temas demasiado delicados. 

Não conhecia nenhuma das vítimas, mas a partir do momento que os rostos nos chegam através do telejornal ou dos jornais impressos apoderam-se de nós, passam a ser nossos conhecidos e ficamos a pensar que "aqueles podíamos ser nós de férias a caminho da praia das Rocas". Não queria pensar nos demasiados cenários que me surgiam, mas não conseguia não pensar! Morreram famílias inteiras, morreram pais e mães com filhos pequenos no colo - o que se diz a um filho com a morte pela frente??? O que se diz ao marido, namorado ou irmão? Diz-se algo ou luta-se até ao fim pela sobrevivência sem sequer ter tempo de despedida?! 

Não vou ser falsa e dizer que não aproveitámos as férias, aproveitámos sim, foram (mesmo) muito boas, mas vão sempre ficar na memória por este acontecimento terrível. Responsabilidades à parte (se é que as há, por vezes achamos que dominamos a natureza e esquecemo-nos do quão é poderosa), não é algo que se possa simplesmente colocar uma pedra sobre o assunto. Resta-nos ajudar (e no que toca a mobilização somos exemplares), continuar a nossa viagem pela VIDA, relativizar os pequenos problemas e agradecer estarmos cá. 

É uma m.... isto de sermos apenas instantes.  

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