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#BALEIA AZUL: ENTRÁMOS NA ERA DA EDUCAÇÃO DEFENSIVA?

06 maio 2017


À primeira vista o nome é tão inocente que podia tratar-se de um documentário do National Geographic ou do relançamento do filme “Free Willy” da década de 90, mas não, o “jogo da Baleia Azul” trata-se do nome de código de um pesadelo real da parentalidade do séc. XXI. São inquietantes as recentes manchetes dos jornais que nos dão conhecimento de um jogo da morte, estrategicamente planeado e, até onde sabemos, dirigido por um jovem adulto, com suposto distúrbio bipolar e inspirado no filme Nerve, que já levou ao suicídio de pelo menos 130 adolescentes. 

Se o Duarte já fosse por esta altura adolescente acho que dava por mim a inspecionar o corpo dele durante o sono em busca de marcas suspeitas para descargo de consciência. Aposto que já muitos pais o fizeram na última semana. O jogo suicida da Baleia Azul é, depois do jogo da "sex roulette", que consiste na troca de parceiros sexuais onde existe pelo menos uma pessoa infetada com HIV, a corrente mais estúpida e contra-natura de que já ouvi falar. Bem sei que os adolescentes são altamente influenciáveis, mas não me lembro nunca de na idade da tarouquice ter feito algo tão estúpido que colocasse a minha vida em risco, muito menos em prol de uma corrente viral de uma rede social da moda. Sempre existiram correntes muito parvas, como aquelas em que tínhamos que enviar a mesma mensagem a 10 pessoas caso contrário algo de mal nos acontecia ou íamos ter sei lá quantos anos de azar. Fazia delete na hora, queria lá saber se entrava no esquema ou não. Se agradava a terceiros ou não. Ainda hoje sou assim, ou gostam de mim como sou ou não gostam, não entro em jogos de personalidade para agradar a todos até porque isso não existe. Nunca vamos ser bons aos olhos de todos. É por isso que somos muitos, para termos a possibilidade de criar as nossas comunidades com as quais nos identificamos. 

Mas bom, vamos ao que interessa porque já estou a dispersar. Quando penso nos motivos que puderam conduzir 130 adolescentes com a vida toda pela frente até ao suicídio e em tantas outras mutilações sem consequências tão graves, não consigo encontrar nenhuma justificação válida para além de possíveis distúrbios mentais, tais como a depressão. Um tema sério que muitas vezes é banalizado. 

“Anda triste, acabou com o namorado”, “só quer estar fechado no quarto a ouvir música” são frases comuns que costumamos ouvir dos pais desta geração e, contra mim falo, pois raramente atribuo muita importância a estas declarações quando me são confidenciadas. Também passei por todas elas e penso sempre que é “uma fase”. Mas estamos noutra era, numa era em que o isolamento pode significar horas alheias nas sombras da internet. E se a “fase” incluir 50 etapas ocultas e camufladas até não haver volta a dar?

Os pais do séc. XXI educam a geração mais difícil de sempre, a geração que não desliga, que quer ir mais além, que quer ser cool, que não mede o perigo. Ainda esta semana passei na rotunda do Areeiro e observei 6 jovens, que não tinham mais do que 14 anos, sem t-shirt, a fazer altos mortais a partir da estátua. Ali, aos olhos de todos, desnudados e sem medir o perigo. Saltava um de cada vez enquanto os restantes filmavam e tiravam fotos para partilhar, certamente nas suas redes sociais. E não me venham dizer que todos eles adoram fazer aquilo, tenho a certeza que pelo menos um deles deve detestar e faz para não ser menos do que os outros. Além disso, ninguém quer ser o pussy das redes socais que foi mais fraco do que os outros. Jogos como este dão-me a certeza de que as sombras da parentalidade são muito mais do que os perigos do álcool, das drogas ou das loucuras das viagens de finalistas. Os verdadeiros perigos estão nestes submundos, nas correntes, nos jogos de imitação para serem socialmente aceites, nos chats escondidos, nas mensagens ocultas, nos vídeos que só duram 10 segundos onde por mais nerds que os pais sejam jamais vão conseguir controlar tudo, entre muitas outras apps que com apenas 32 anos já desconheço certamente. 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, a cada 40 segundos um jovem, entre os 15 e os 29 anos comete suicídio e a taxa tem vindo a aumentar. Ainda não está 100% provada a sua relação com o “jogo da Baleia Azul”, mas desde que o jogo começou a ser investigado que a taxa de suicídio de jovens no Brasil aumentou 10% e são muitos os países que já revelaram casos semelhantes, até mesmo Portugal, onde já foram contabilizados 4 casos, um deles grave. Estimasse que para cada caso fatal há, pelo menos, outras 20 tentativas fracassadas.

São muitas as questões que invadem a minha cabeça: teriam todos estes jovens depressão? Seriam todos jovens socialmente isolados? Serão os jovens de hoje em dia tão descrentes da vida? Ou por outro lado, a necessidade de afirmação é tanta que vale tudo? Existem pais a afirmar que os filhos eram normais e que não notaram nada, o que é ainda mais assustador. Que correntes silenciosas são estas? Não sei como alguém que está do outro lado do ecrã consegue ser tão persuasivo e convincente ao ponto de levar alguém até ao abismo. Por outro lado, parece-me que hoje em dias os jovens encaram a fronteira entre a vida e a morte com demasiada leveza. Corro o risco de parecer a minha avó a falar mas experimentem viajar, ir a festivais de música, ler livros, conhecer culturas diferentes, beber um bom vinho ou esperarem até sere pais e vão ver que aquilo que nos prende à vida é bem melhor do que desistir dela ao primeiro tropeção. 

E, por outro lado, estes jovens terminam a vida tão cedo em prol de quê? Em prol de que compensação? Mentes frágeis e manipuláveis que estão a transformar a educação livre e democrática em educação defensiva. 

As autoridades já estão a fazer o seu papel no alerta para estes casos, mas será que basta? Não terão também as escolas que, a par com os pais, começar a ter um papel mais ativo nesta transfiguração da sociedade? 

Sou só eu que penso assim ou acabamos mesmo de entrar na era da educação defensiva? 

Créditos foto: Google 


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