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TENHO MEDO DE LHE PASSAR A ANSIEDADE - PARTE II | COOL(ABORAÇÃO) PSICÓLOGA IRINA VAZ MESTRE

22 março 2017



Não escrevo sobre ansiedade para parecer a coitadinha, para terem pena de mim ou para ter mais likes ou seguidores no blog, este cantinho não é um negócio, é uma extensão real de mim, da pessoa que sou e do que gosto de partilhar. Escrevo sobre ansiedade porque ela é real em mim, porque sei escrever sobre ela melhor do que qualquer outro assunto. I-n-f-e-l-i-z-m-e-n-t-e. Escrevo sobre ansiedade para dar um rosto real a um problema real tantas vezes ignorado (até pelos médicos) e na maioria delas desvalorizado. Escrevo sobre ansiedade para encorajar todas as pessoas que se identificam com os sintomas que descrevo e que me dizem "senti que me estava a descrever" a não desistirem do lado bom da vida porque a ansiedade consegue ser muito derrotista. E são muitos os dias em que ela nos estraga os planos Tenho um objetivo a médio prazo que é voltar a conseguir estar bem sem medicação, e acredito nele com força porque já estive 10 anos sem ela. No entanto, é normal que um problema com que lido no dia a dia, e acreditem, não há um único dia em que ela não exista em mim, é aquela amiga toxica que não queremos ter, me faça temer pelo futuro do Duarte. É o pior legado que lhe posso deixar. E se a ansiedade for hereditária? No seguimento do meu último texto, convidei a Psicóloga Irina Vaz Mestre a responder às minhas dúvidas e através de exemplos práticos a deixar algumas dicas para mães ou pais com TAG (Transtorno de Ansiedade Generalizada) ou Ataques de Pânico. 

Posso evitar passar-lhe ansiedade?

A ansiedade tem vindo, nos últimos tempos, a aumentar de forma significativa, e isto é verdade tanto para adultos como para crianças. Muitas vezes apercebemo-nos que a ansiedade da criança no que diz respeito a determinado assunto é o reflexo da grande ansiedade que os pais têm relativamente a esse mesmo assunto. Lembro-me de um caso que acompanhei que revela claramente o que estou a referir. Foi-me pedido para observar uma criança, de 5 anos, que estava a exibir comportamentos de rejeição à escola, quando antes isso não acontecia. Todos os dias de manhã ficava a chorar muito, fazendo birras longas e recusando-se entrar na sala e a separar-se da sua mãe. Esta criança estava a revelar uma angústia de separação que era explicada pela extrema ansiedade que a mãe estava a sentir devido a uma operação cirúrgica delicada a que ía ser sujeita, nas próximas semanas. Este procedimento clínico gerou na mãe pensamentos de grande angústia que o seu filho incorporou, resultando num comportamento de rejeição à escola, uma vez que esta criança queria estar sempre perto da sua mãe, de forma a assegurar que nada lhe acontecia.

Quando descobrimos que, sem que seja essa a nossa intenção, estamos a transmitir aos nossos filhos a nossa ansiedade, então é fundamental que assumamos a responsabilidade pela nossa ansiedade e que trabalhemos, em primeiro lugar, o nosso interior de forma a retirar a nossa atenção dos pensamentos que promovem a ansiedade. Isto é crucial uma vez que, apesar de na maior parte das vezes, estes pensamentos não serem verdadeiros, eles têm o poder de assumir controlo sobre nós, fazendo-nos sentir e agir de determinada forma. Aqui entra o Mindfulness como parte da solução. O Mindfulness retira a nossa atenção aos pensamentos; treina-nos a prestar atenção plena a nós mesmos e ao mundo através dos nossos sentidos, desfazendo assim a ansiedade. 

Sendo os filhos um reflexo dos pais, como o posso proteger da minha ansiedade à medida que ele ganha perceção das coisas? 

A questão de querermos “proteger” os nossos filhos das nossas fragilidades é uma das questões que mais surge entre os Pais. Sabemos que não somos perfeitos, sabemos que temos questões internas para resolver e, ao mesmo tempo, sabemos que queremos ser o melhor dos modelos para os nossos filhos. Queremos que não sofram, queremos que não passem pelo mesmo que nós, queremos que a vida seja, para eles, o menos desafiante possível. E é legítimo que assim seja. E é aqui que surge a palavra ‘vulnerabilidade’. A nossa ‘vulnerabilidade’ é a força dos nossos filhos, a nossa força, a força das nossas fragilidades. Demonstrar às nossas crianças que também nós somos vulneráveis, que não somos perfeitos, que temos medos e preocupações, faz com que também eles assumam as suas e não cresçam a tentar fugir, evitar e resistir às suas frustrações e ansiedades. Saberem que também os Pais, os seus maiores modelos, lutam e não desistem das contrariedades que vão surgindo, é para eles a maior das lições que connosco podem aprender. Então, sejam transparentes quanto ao que sentem. Conversem sobre o que sentem. Falem sobre como tentam ultrapassar aquilo que querem que seja ultrapassado. E permitam que também os vossos filhos vos falem sobre as suas próprias inseguranças e medos. É importante que estas conversas se façam em privado, com total disponibilidade emocional para que possamos escutar e para que sejamos escutados.

Como podemos detetar a ansiedade nas crianças? Quais são os sintomas?

Quando abraçamos na Parentalidade uma atitude de partilha consciente (partilha das nossas ansiedades, medos, receios, limites), conectamo-nos de forma única com os nossos filhos e, de forma muito natural, apercebemo-nos das suas ansiedades. O assunto é conversado e discutido e as crianças não irão achar que devem reprimir os sentimentos mais desagradáveis. Pelo contrário, sabem que também esses são sentimentos legítimos, para os quais se deve olhar e procuram os Pais para partilhar o que surge no dia-a-dia.

Contudo, e ainda que não goste de generalizar, porque cada caso é um caso, existem sinais aos quais devemos estar atentos e que, de forma geral, se manifestam em regressões comportamentais. Quando começamos a perceber que os nossos filhos estão a regredir em comportamentos que já estavam adquiridos, isso pode ser um sintoma de que algo está a preocupar a criança. Por exemplo, crianças que começam a fazer longas birras sem uma causa aparente; dores de cabeça e/ou barriga sem explicação clínica; dificuldades em comer ou dormir, quando antes estas dificuldades não existiam; início de hábitos tais como roer as unhas. É importante analisarmos as alterações que podem estar a ocorrer na vida da criança e que possam estar a provocar a ansiedade. É crucial conversar com a própria criança e com todas as pessoas que possam estar envolvidas. Perceber que necessidades emocionais estão por detrás do comportamento exibido e ir ao encontro dessas necessidades é crucial para atenuar a ansiedade e o medo que possa estar a existir. Caso a ansiedade se mantenha, deve procurar-se ajuda técnica. Um profissional que consiga, através da sua experiencia e do seu olhar clínico, entender o que a criança está a tentar comunicar, qual a necessidade em falta e, assim, providenciar acompanhamento parental e fornecer estratégias que atenuem a ansiedade da família. Este trabalho deve ser feito em conjunto com a família, porque ninguém substitui os pais e o papel que estes desempenham na vida de uma criança.

#somosmaisortesdoqueaansiedade
PS - Estou sempre disponível para falar sobre este tema, aqui ou em privado.

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